
Fotografia da rodagem em 11 de Julho de 2008
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Da ideia
O desafio foi, desde o primeiro momento, construir um filme sobre/com o Urbano que tivesse a capacidade de revelar uma identidade, uma imagem sincrónica do homem e da sua literatura que dispensasse o fluir do tempo, ou melhor, que o tomasse como se ele pudesse concorrer num só ponto em que presente, passado e futuro perdessem o sentido individual e fossem simultaneamente as partes de um todo.
Havia também desde o começo a vontade de fechar, tanto quanto fosse permitido, o campo sobre o Urbano, retirando da superfície do filme todos os detalhes que, embora trazendo contributos valiosos para o nosso entendimento do escritor, como os depoimentos de terceiros ou as imagens do passado, não se encontrassem na primeira pessoa, remetendo-os para um lugar muito mais adequado e que se presta à sua fruição completa e autónoma.
Com hesitações próprias de primeira obra e com o apoio involuntário e diferido do João César (a quem o filme teria humildemente sido dedicado, não fora o meu irmão Zé Maria ter partido prematuramente numa sexta-feira de Maio entre as seis e as sete) houve a coragem de o fazer e o filme tem na sua superfície apenas e só Urbano Tavares Rodrigues - tanto quanto conseguimos a duas mãos e num exercício de grande intimidade.
Da rodagem
Há sempre uma dicotomia fundamental com que nos deparamos quando iniciamos a rodagem de um filme como este, uma escolha que temos de fazer de antemão, com que nos comprometemos, por que nos responsabilizamos irreversivelmente e que condicionará, não só a rodagem mas todo o filme: o grau de intrusão a atingir com os meios técnicos e humanos.
Tudo teve de ser decidido após a primeira conversa de quinze minutos em casa de Urbano Tavares Rodrigues, sentados à mesa da saleta onde iriam ter lugar as sessões. O Urbano, afável, ouvinte, falador, interessado estava cheio de energia mas a dimensão daquela figura da nossa história e a fragilidade da sua saúde afastaram-me a ideia de invadir a sua paz com o aparato mecânico que me parecia poder assegurar uma imagem limpa e escorreita - nem sequer um pequeno projector teria coragem de lhe apontar - e, pela naturalidade com que a conversa deslizou, afastei também a hipótese de quebrar a intimidade que se insinuava trazendo para aquele espaço alguém que, no mínimo, assegurasse a vigilância da qualidade dos registos, correndo riscos que esperava inverter na pós-produção. O material seria o mínimo, a câmara no tripé e um microfone direccional numa girafa sobre a cabeça e fora (esperava-se que assim se mantivesse, o que nem sempre aconteceu) de campo.
As sessões semanais que durante mais de meio ano se sucederam, pontualmente à sexta-feira entre a seis e as sete da tarde, foram semelhantes entre si. O Urbano definiu na primeira o lugar onde iria ficar de aí em diante, sentado à mesa, de frente para a grande sacada da pequena saleta (que garantia o aproveitamento de toda a luz que entrava mas aumentava o risco efectivo de que os reflexos nos óculos lhes ocultassem o olhar). Restava-me arrumar o tripé da câmara e do microfone na melhor posição possível e esgueirar-me para o outro lugar à mesa, de onde poderia conversar com alguma naturalidade mas sem qualquer possibilidade de monitorizar o trabalho da câmara até ao fim da sessão (deitando apenas ocasionalmente a mão aos auscultadores para confirmar que tudo estava como tinha sido deixado no início).
Da pós-produção e montagem
Os riscos corridos na rodagem revelaram o que seria de esperar, a proporcionalidade inversa entre a intimidade dos registos e a qualidade da imagem. A pós-produção viria a ser um processo longo e pleno de momentos de desespero, tentando recuperar depoimentos insubstituíveis para que parecia não existir solução possível (balanço de brancos destruído com o acender do candeeiro de mesa a meio da conversa, nuvens caprichosas que faziam variar a luz da saleta em quantidade improvável e até em temperatura de cor, entardeceres prematuros que no Inverno faziam com que a conversa terminasse já com o sol posto e apenas com a iluminação da tímida luz do tecto, mudança de posição do Urbano de que nenhum de nós se apercebia e que o colocavam quase fora de campo, o computador do Urbano que por causa de um vírus não podia ser desligado e impunha um zumbido indisfarçável, etc., etc.), e parecia que os acidentes ocorriam sempre e só nos excertos mais importantes, naqueles de que jamais poderíamos prescindir.
Mais uma vez foi preciso tomar uma decisão de peso e decretar a prevalência irrevogável do conteúdo sobre a superfície do filme, aceitar que imagens à beira do precipício pudessem ser mantidas no alinhamento da montagem, desde que as palavras do Urbano assim o reclamassem, e nisto apoiava-me nas palavras experientes de Serge Tréfaut (curiosamente sobrinho do Urbano) num contexto diverso em que defendia precisamente o mesmo. Com esta convicção reforçada e com a ajuda inestimável do Isaque Andrade e do Rui Martins mergulhei nas infinitas horas de tentativa de correcção, por vezes frame a frame, dos planos que de outro modo teriam sido liminarmente rejeitados.
Da transparência
O meu maior desejo neste momento é que, no final do processo, o filme se tenha tornado tão transparente que dele seja apenas visível o seu objecto, Urbano Tavares Rodrigues na primeira pessoa e tão completo quanto é possível através de um olhar exterior de admiração e amizade, condensado em pouco mais de uma hora.
Lisboa, Maio de 2009
António Castanheira